4# BRASIL 30.4.14

     4#1 ESQUEMA DO DOLEIRO OPEROU NOS CORREIOS
     4#2 CONFLITO COMPANHEIRO
     4#3 OS GASTOS SIGILOSOS DO GOVERNO
     4#4 TROCO  ITALIANA
     4#5 SOB ATAQUES, PADILHA CAI NA ESTRADA PARA SE TORNAR CONHECIDO
     4#6 PRIVACIDADE EM JOGO

4#1 ESQUEMA DO DOLEIRO OPEROU NOS CORREIOS
Investigao aponta elo entre Alberto Youssef e a JN Rent a Car, que embolsou R$ 77,5 mi em contratos com a estatal. Testemunha diz que a locadora era usada para lavar dinheiro
Claudio Dantas Sequeira (claudiodantas@istoe.com.br)

Em 2005, os Correios foram o piv do maior escndalo de corrupo da era petista no poder, o mensalo. Agora, nove anos depois, a estatal reaparece enredada em outro caso de potencial explosivo. A Polcia Federal, dedicada nos ltimos dias a apurar o envolvimento de funcionrios pblicos no esquema desbaratado pela Operao Lava Jato, encontrou fortes indcios de que o doleiro Alberto Youssef operou, alm da Petrobras e do Ministrio da Sade, tambm nos Correios. O elo entre o doleiro e a estatal  a JN Rent a Car, cujo nome fantasia  Renacar. Esta empresa de aluguel de carros, sediada em Londrina (PR) e pouco conhecida no mercado, embolsou, em oito anos, mais de R$ 77,5 milhes em contratos com os Correios. No inqurito da PF, a JN aparece fazendo transaes financeiras com a MO Consultoria, do doleiro Youssef. De 2005 at 2013, a locadora de veculos multiplicou seus ganhos nos Correios em at 20 vezes, com a ampliao e renovao automtica de contratos que receberam nada menos que dez aditivos. O proprietrio da JN Rent a Car  uma figura conhecida do meio poltico e policial: trata-se de Assad Jannani, irmo e um dos testas de ferro do ex-deputado Jos Janene (PP), ru do mensalo que morreu em 2010 de enfarte e que era um dos parlamentares mais prximos de Youssef.

OUTRA VEZ OS CORREIOS - Piv do mensalo, a estatal reaparece em novo escndalo. Segundo a PF, o doleiro Alberto Youssef usou prestadora de servios da estatal

Eles usavam a JN Rent a Car para lavar dinheiro, afirmou em depoimento exclusivo  ISTO a testemunha-chave da Operao Lava Jato, o empresrio Hermes Magnus. Foi atravs de Magnus que a PF soube, no fim de 2008, que o doleiro Alberto Youssef, velho conhecido dos policiais, tinha voltado a operar. Para ISTO, Magnus, ex-scio de Jos Janene, detalhou como funcionava o esquema:

Lembra os euros apreendidos com o Enivaldo Quadrado, doleiro que virou ru do mensalo? Era para comprar os veculos dos contratos de locao com os Correios, disse o empresrio. Lembro do Janene comemorando o negcio e depois lamentando a apreenso do dinheiro. Eles esto nos Correios. Na verdade, nunca saram de l. Magnus se aproximou de Janene quando buscou um investidor para sua empresa, a Dunel Indstria e Comrcio. Ele diz ter se surpreendido quando viu sua empresa usada como lavanderia de dinheiro no esquema de Youssef. Para comprar os equipamentos, eles usaram diversas empresas de fachada, a maioria em Braslia. No incio, queriam colocar tudo em nome da JN Rent a Car, conta Magnus.

O sucesso da JN Rent a Car nos Correios foi meterico. De um faturamento de R$ 1,4 milho, em 2005, a locadora passou a ganhar mais de R$ 20 milhes em 2009. Ela prestou servios para a estatal em dez Estados da Federao: So Paulo (regio metropolitana e interior), Minas Gerais, Esprito Santo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Maranho, Bahia, Cear, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. S o contrato de So Paulo de 2006 foi aditivado dez vezes. Para fornecer 80 kombis aos Correios, a JN Rent a Car recebeu pouco mais de R$ 15 milhes. Um investimento e tanto para quem investiu apenas um tero desse valor  e com dinheiro provavelmente obtido do esquema de lavagem, limpo de impostos e de origem ilegal. Segundo os Correios, cada Kombi custou R$ 1,4 mil por ms.

No inqurito da Polcia Federal fica evidente a ligao da JN com o esquema de lavagem. A quebra de sigilo bancrio do doleiro preso mostra a compensao de um cheque de R$ 204.157 emitido pela MO Consultoria, de Alberto Youssef, para a JN, em 9 de janeiro de 2009. Naquele dia no houve outras operaes relevantes, embora na primeira semana do ano a movimentao bancria da MO tenha superado os R$ 2,5 milhes. Relatrio da inteligncia financeira do Coaf, nmero 4.030, enfatiza o relacionamento da MO Consultoria com a empresa JN Rent a Car Ltda. e uma outra firma, chamada Angel Servios Terceirizados, ambas investigadas nos autos por indcios de utilizao de pessoas interpostas para as operaes de lavagem de dinheiro. A PF afirma que a empresa de Youssef estava em nome do laranja Waldomiro Tuna de Oliveira, que tambm aparece no comando de outras empresas de fachada. E se refere  JN como uma empresa que foi de propriedade de Jos Janene. Para os agentes que investigam o caso, s a quebra do sigilo bancrio da locadora pode mostrar o verdadeiro destino dos R$ 77,5 milhes que escorreram dos cofres dos Correios nos ltimos oito anos.

A quebra de sigilo bancrio do doleiro preso mostra a compensao de um cheque de R$ 204 mil emitido pela MO Consultoria, de Alberto Youssef, para a JN Rent A Car

Em dezembro de 2012, a JN acabou penalizada pelos Correios por descumprir clusulas contratuais. A questo era mais que uma firula: as 80 kombis da JN que prestavam servios  estatal haviam sumido. Por causa de uma dvida no paga da locadora com a Volkswagen, oficiais de justia tinham desembarcado em agncias de Ribeiro Preto e comeado a apreender os veculos. Os Correios ficaram sem conseguir entregar encomendas e cumprir com suas agendas de atividades.

Na entrevista  ISTO, o empresrio Hermes Magnus fornece outros elos do esquema criminoso. Ele diz ter decidido pular fora da sociedade na Dunel Indstria e Comrcio quando Youssef e Janene o obrigaram a assinar uma papelada para abrir offshores da empresa. A Dunel comearia a ser usada pela CSA Projetct Finance (brao financeiro de Youssef) para lavar dinheiro. Primeiro, nas Ilhas Virgens Britnicas, depois nas Bahamas e assim por diante. Segundo Magnus, o esquema obedece a uma lgica complexa que envolve a criao de offshores em at cinco nveis, uma dentro da outra, e diferentes parasos fiscais. No plano nacional, a teia de empresas chega a at dez nveis de sociedades. Quando o Youssef estava chegando do Exterior com os documentos para eu assinar, fugi e contei tudo para a PF, revelou Magnus. Com base nas declaraes do empresrio, o juiz Srgio Moro montou uma fora-tarefa com a Polcia Federal e o Ministrio Pblico em Londrina para det-lo. Para eles, prender o Youssef era uma questo de honra, pois ele enganou a todos em 2003 quando tinha acertado uma delao premiada e prometido no operar mais, afirmou Magnus  ISTO.

Em 2012, a JN Rent A Car foi penalizada pelos Correios por descumprir clusulas contratuais. As 80 kombis da JN que prestavam servios  estatal haviam sumido

Segundo o empresrio, a JN, que ganhara a licitao milionria nos Correios, estava enredada nessa teia de corrupo. Em 2009, a PF obteve uma pista para prender Enivaldo Quadrado (doleiro ru no mensalo) no Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos (SP). Scio da corretora Bnus-Banval e condenado pelo Supremo Tribunal Federal na Ao Penal 470, Quadrado fora pego na ocasio com 361 mil euros, equivalentes a R$ 1,2 milho, em maos de notas presos ao corpo, nas meias e at na cueca. Magnus conta que era para ele estar no lugar de Enivaldo Quadrado. Mas eu no aceitei ser mula (pessoa que carrega o dinheiro e entrega no destino combinado) do esquema, alega. Eu estava na Europa semanas antes. Deram para mim um celular Voip e queriam um favor. Eu desconfiei e nem liguei o telefone. Duas semanas depois, entendi o porqu, desabafa. Magnum suspeita que parte dos euros do corretor seria usada para a compra dos veculos da JN Rent a Car.

Euros apreendidos com o doleiro Enivaldo Quadrado seriam usados para a compra dos veculos da JN Rent A Car

Os investigadores avaliam que o esquema se beneficiou especialmente das gestes do PMDB no comando da estatal, com a anuncia do PT, repetindo o enredo que deflagrou as denncias do mensalo. Nos ltimos dias, a PF e o Ministrio Pblico Federal colheram novos e robustos indcios de que Youssef era o brao financeiro de Janene e que este no era apenas mais um deputado mensaleiro, e sim um dos principais operadores polticos do esquema, que j funcionava antes de o governo do PT chegar  Presidncia e que continuou operando depois do escndalo do mensalo. Janene e Youssef eram unha e carne, como uma pessoa s. Entraram seus herdeiros, confirmou Magnum  ISTO. Quando ele morreu, s moveram as peas do tabuleiro.


4#2 CONFLITO COMPANHEIRO
Compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras provoca bate-boca entre petistas ilustres e instalao de CPI pode ampliar a crise dentro do governo

Ocaso Petrobras-Pasadena provocou um efeito inesperado at mesmo pelos mais experientes analistas polticos: um incrvel bate-boca pblico entre o petista Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras no momento da compra da refinaria, e a presidenta Dilma Rousseff, que  poca comandava o Conselho Administrativo da petrolfera. Logo que o escndalo veio  tona, a presidenta, atravs de uma nota, afirmou que aprovou a transao com base em um parecer tcnica e juridicamente falho e que, se conhecesse todas as clusulas do processo, a compra no seria aprovada pelo Conselho. O posicionamento da presidenta deixou Gabrielli irado. Ligado ao ex-presidente Luiz Incio Lula Silva e sentindo-se atingido diretamente, ele no deixou por menos: Eu era presidente da empresa e no posso fugir de minha responsabilidade, do mesmo modo que a Dilma no pode fugir da responsabilidade dela, disse Gabrielli. Diante do disparo, Dilma colocou em ao o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Este episdio est fartamente documentado pelas atas do Conselho, disse o ministro, lembrando que os registros confirmam que as duas clusulas que seriam utilizadas pelos antigos proprietrios da refinaria para obter ganhos milionrios na Justia americana no foram exibidas no momento da compra. Mercadante tambm ressaltou que o Conselho deliberou pela compra de 50% da companhia, mas no da segunda metade, na qual se encontra o centro da controvrsia.

"A aquisio da Petrobras foi autorizada pelo conselho com base em resumo executivo. Tal resumo era tcnica e juridicamente falho. Se todas as clusulas fossem conhecidas, no seriam aprovadas." - Dilma Rousseff, presidenta da Repblica e ex-presidenta do Conselho da Petrobras

 Gabrielli assinou todas as atas que sustentam integralmente as manifestaes da presidenta, concluiu Mercadante, tentando minimizar os estragos polticos que a troca de farpas entre a presidenta da Repblica e o ex-presidente da Petrobras pode provocar. Foi um movimento vazio. Capaz de aumentar o teor explosivo de uma investigao que passara anos em silncio, inclusive no Tribunal de Contas da Unio, a nota distribuda pela presidenta, que insinua ter sido enganada, foi um desses documentos to ruinosos na histria de um governo que deveria ter sido guardada num cofre por 24 horas at que se pensasse melhor e avaliasse todas as consequncias, observou um ex-ministro ouvido por ISTO na ltima semana.

"Eu era o presidente da empresa e no posso fugir da minha responsabilidade, do mesmo jeito que a presidenta Dilma no pode fugir da responsabilidade dela."- Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras

Para a oposio no poderia haver melhor cenrio do que um conflito nas fileiras governamentais em torno de uma polmica que envolve um prejuzo de US$ 530 milhes na maior empresa nacional. O bate-boca entre Dilma e Gabrielli se d no exato momento em que o Planalto havia assumido a estratgia de minimizar os prejuzos quando resolveu ampliar a pauta da CPI da Petrobras para incluir denncias que atingiriam o PSDB e o PSB e foi derrotado por uma deciso da ministra Rosa Weber, do STF, que garante a formao de uma CPI exclusiva para a Petrobras. Na prtica, a briga interna no PT vai permitir que deputados e senadores da oposio mantenham as falcatruas cometidas na Petrobras em pauta, mesmo sem a implantao da CPI, esvaziando as manobras palacianas para ganhar tempo nas investigaes. Na semana passada, a oposio conseguiu aprovar requerimento para que Gabrielli e a atual presidenta da petrolfera, Graa Foster, compaream ao Congresso para dar explicaes. Enquanto no sai a CPI, vamos usar todos os recursos possveis para tentar esclarecer os detalhes de um golpe que lesou de forma absurda os cofres da Petrobras, disse na quinta-feira 24 um dos lderes tucanos no Congresso.

"Esse episdio est fartamente documentado pelas atas do conselho. Gabrielli assinou todas as atas que sustentam integralmente as manifestaes da presidenta. - "Aloizio Mercadante, ministro-chefe da Casa Civil

Ao governo, restou um encaminhar burocrtico. O presidente do Senado, Renan Calheiros, aliado de Dilma, prometeu entrar com recurso para pedir ao plenrio do STF que rediscuta a deciso da ministra Rosa Weber. As chances de ocorrer uma reviravolta, porm, so pequenas. O dono da pauta do STF  seu presidente, diz o estatuto  e ningum consegue imaginar que Joaquim Barbosa ir se mobilizar para socorrer o governo.

Na verdade, o conflito Gabrielli x Dilma antecede os episdios dos ltimos dias. Durante os oito anos do mandato de Luiz Incio Lula da Silva, ambos protagonizaram outras escaramuas.  Ao depor  Comisso de Assuntos Econmicos do Senado, Graa Foster fez colocaes tcnicas, sem discutir sua interveno com Ricardo Berzoini, ministro de Relaes Institucionais. Graa Foster sublinhou a avaliao de que a compra de Pasadena foi um mau negcio, numa viso oposta  de Gabrielli, para quem a compra era, em 2006, um bom  negcio,  mas que se complicou em funo da nova conjuntura internacional iniciada pela recesso mundial de 2008-2009. Para Graa, os enormes prejuzos da operao no podem ser compensados. Ao lembrar que os lucros de Pasadena chegam atualmente a US$ 58 milhes por ms, Gabrielli sustenta que, nesse ritmo, o rombo pode ser fechado  em dez meses. So pontos de vista opostos e igualmente defensveis. Seu emprego depende da finalidade poltica que se quer atingir com eles. Caso a CPI seja instalada, o governo s poder evitar novas tragdias nos meses que antecedem a eleio presidencial se exibir uma vontade de agir de forma unitria. Essa disposio, porm, no apareceu at aqui.


4#3 OS GASTOS SIGILOSOS DO GOVERNO 
Para dificultar a fiscalizao, despesas confidenciais com cartes corporativos tm aumentado desde a gesto de Lula. No gabinete de Dilma, 98% do que  comprado est sob sigilo. Na Esplanada dos Ministrios, 54% 
Izabelle Torres (izabelle@istoe.com.br)

O governo vem dificultando, nos ltimos anos, a transparncia e a fiscalizao de seus gastos. As despesas sigilosas realizadas com cartes corporativos desde 2007, quando comeou o segundo mandato de Luiz Incio Lula da Silva, eram de 20,9% do total. Na gesto de Dilma Rousseff o percentual do sigilo do governo mais que dobrou, superando a marca dos 50% de tudo o que  gasto anualmente por todos os ministrios. Na rubrica de confidenciais esto os servios pagos pela Agncia Brasileira de Inteligncia, pela Polcia Federal e, principalmente, pelo gabinete pessoal da Presidncia da Repblica, que decretou sigilo em mais de 98% das compras realizadas.  A prerrogativa de manter em segredo informaes do Poder Pblico  exclusiva para casos em que a publicidade dos dados coloque em risco a segurana nacional. Entretanto, desde que assumiu o poder, praticamente todas as despesas com  dirias, compras de mantimentos, roupas e locomoo realizadas para Dilma Rousseff esto protegidas. No primeiro bimestre deste ano, os registros de gastos no divulgados com cartes corporativos do seu gabinete aumentaram  33% em relao ao mesmo perodo do ano passado, enquanto a despesa geral de todo o governo subiu apenas 4,5%, um percentual compatvel com a inflao do perodo.

O antecessor de Dilma, o ex-presidente Lula, tornou-se adepto do sigilo depois que seu governo foi denunciado, em 2008, pelo uso indevido que ministros e funcionrios faziam dos cartes. Antes das denncias, Lula mantinha a mdia de 82% das suas despesas em carter sigiloso. Foi aumentando a partir de 2009 e atingiu 99% em 2010, patamar mdio que foi mantido pelo gabinete de Dilma desde ento. Hoje, 98,5% das despesas feitas pelo seu gabinete esto protegidas. Em 2013, 2012 e 2011 o ndice das despesas protegidas efetuadas pelo gabinete da presidenta ficou em 99%.

Considerando tudo o que foi gasto pela Esplanada dos Ministrios nos dois primeiros meses deste ano, um total de R$ 6,9 milhes, 54%, ou R$ 3,8 milhes, levaram a rubrica de sigiloso. No ano passado, o percentual de confidencialidade dos gastos do governo todo com os cartes corporativos foi de 44,6%. Em 2010, quando Lula iniciou seu ltimo ano de mandato, o percentual de segredo das despesas com os cartes foi de 39,6%, mesmo depois da queda de ministros e do desgaste sofrido com uma CPI dois anos antes. A CPI, na ocasio, exps as fragilidades na fiscalizao dos rgos de controle. O governo petista chegou a prometer a rgos como TCU e Ministrio Pblico que disciplinaria esses gastos. Entretanto, uma anlise sobre prestao de contas desses cartes desde ento mostra que o que houve foi apenas a migrao dos gastos pblicos para a rubrica de sigiloso.

Outra estratgia foi a reduo do nmero e do poder dos ecnomos, nome tcnico dos funcionrios autorizados a realizar despesas com cartes corporativos. No primeiro mandato de Lula, eram 22 pessoas no gabinete presidencial aptas a fazer compras em nome do presidente. No ano seguinte esse nmero subiu para 36, mas foi caindo gradativamente, at que apenas quatro funcionrios permaneceram com a prerrogativa. A reduo do nmero de ecnomos foi inversamente proporcional aos registros de gastos sigilosos. No por acaso. Depois da CPI dos cartes corporativos, os nomes desses funcionrios se tornaram conhecidos e seus CPFs passaram a constar no sistema da Controladoria-Geral da Unio junto aos detalhes das compras realizadas. 

A consequncia disso pode ser notada nas contas da gesto de Dilma Rousseff deste ano. Os ordenadores de despesas realizaram at agora apenas compras irrelevantes, a maioria inferior a R$ 200. Grande parte dos gastos tornados pblicos foi realizada em postos de gasolina. As despesas relevantes  R$ 1.013.459,93 do R$ 1.027.432,09 gasto pela Presidncia da Repblica  no so conhecidas por estarem cobertas pelo sigilo.


4#4 TROCO  ITALIANA
MP da Itlia constrange as autoridades brasileiras ao pedir que Henrique Pizzolato seja devolvido ao Pas, quatro anos depois de Lula contrariar o governo italiano negando a extradio do ativista Cesare Battisti
Por Janaina Cesar, de Modena

Menos de quatro anos depois de o ex-presidente Lula rejeitar a extradio do ativista de esquerda Cesare Battisti para a Itlia, autoridades italianas indicam que podem devolver ao Brasil o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, condenado no processo do mensalo a 12 anos de priso. No ltimo dia 7, o procurador Alberto Candi, do Ministrio Pblico da Itlia, se manifestou  Corte de Apelao de Bolonha pela extradio de Pizzolato ao Brasil. O que poderia ser encarado como favor da Justia italiana, na verdade, constrange as autoridades brasileiras e a cpula do PT, que no gostaria de ter de lidar com o caso Pizzolato e seus desdobramentos em territrio brasileiro em pleno ano eleitoral.

EXTRADIO - Documento enviado pelo governo brasileiro pedindo retorno de Pizzolato (abaixo)  incompleto e possui erros de traduo

Uma primeira audincia com o juiz, a quem caber a deciso final, ainda no tem data estabelecida, mas, segundo uma fonte interna da procuradoria de Bolonha, ocorrer no final de maio. No dia 21 do mesmo ms, haver uma audincia do recurso  Corte de Cassao (Supremo Tribunal Federal da Itlia), impetrado pelos defensores de Pizzolato, para que ele aguarde a sentena da extradio em priso domiciliar. Seus advogados tentam, desde o momento da priso, convencer os juzes de que no existe risco de fuga, uma vez que os documentos de Pizzolato se encontram aprendidos pela polcia italiana.

O processo est sendo conduzido a toque de caixa, mas os advogados de defesa de Pizzolato s tiveram acesso ao processo de extradio h trs semanas. O pedido quase burocrtico de extradio foi encaminhado em maro pelo Ministrio da Justia brasileiro. Trata-se de uma formalidade. Na verdade, o governo do PT torce para que o pedido seja recusado. Tudo o que os petistas querem, em ano eleitoral,  ver Pizzolato  possvel fonte de problemas para o partido  bem longe do Brasil. Juridicamente, nem o prprio Supremo Tribunal Federal acreditava que isso ocorresse. Esses dois fatores talvez expliquem os furos existentes no processo encaminhado  Itlia ao qual ISTO teve acesso. No total foram enviadas 153 pginas traduzidas em italiano, o que deixou a defesa de Pizzolato perplexa. Segundo uma fonte prxima ao ru, era esperado algo muito mais substancioso, pois sabe-se que, ao todo, os autos da ao penal 470 possuem mais de 50 mil pginas. Fazem parte da documentao enviada o mandado de priso, o pedido de extradio, uma parte da sentena e alguns dos embargos de declarao, mas as informaes so insuficientes. Fica impossvel estabelecer uma conexo ou entender o que querem dizer, disse uma pessoa ligada a Pizzolato.

BATEU, LEVOU - O ativista Cesare Battisti (abaixo) ficou no Brasil a contragosto dos italianos, que, agora, querem despachar Pizzolato, preso em Modena (acima)

Um exemplo das lacunas dos documentos apresentados pelo Brasil est no seguinte trecho: As atividades de apurao realizadas pela Comisso Parlamentar de Inqurito dos Correios e no mbito da presente investigao nmero 102 demonstraram a retirada de recursos significativos do Banco do Brasil a favor da empresa DNA Propaganda, a qual fonte de financiamento foi o fundo de investimento Visanet. No rodap encontra-se o nmero 102 com o seguinte texto: Durante as investigaes criminais foram pedidos documentos e informaes  presidncia do Banco do Brasil a propsito dos fatos em apurao resultando as constataes da relao de investigao interna que constituem o volume 25 dos atos da investigao. O problema  que o volume citado no foi disponibilizado  Justia italiana, assim como outros volumes referidos no texto traduzido, mas no anexados ao processo de extradio.

Outra parte importante do pedido de extradio refere-se aos embargos de declarao, que so os recursos apresentados pelos advogados de Pizzolato durante o processo do mensalo. Na primeira linha da pgina 2, nota-se o pedido de incio imediato da execuo da pena, independentemente da publicao da sentena. Logo abaixo nota-se uma tamanha confuso editorial e de traduo, muito similar a um quebra-cabeas. Foram divididos frases e ttulos e o rodap do texto foi parar no meio da folha. Uma fonte da procuradoria de Bolonha ouvida por ISTO confirmou que a quantidade de informaes traduzidas referentes s acusaes de Pizzolato  insuficiente e que iro pedir mais informaes a respeito. Pessoas que tiveram acesso aos documentos ainda se surpreenderam com a traduo quase amadora feita por uma empresa brasileira, a um custo de R$ 8 mil.

Com a procuradoria favorvel  extradio, fica cada vez mais complicada a situao de Pizzolato. Uma das linhas de defesa ser exatamente a questo das pssimas condies das penitencirias brasileiras. Pizzolato foi condenado em 2012 por corrupo, peculato e lavagem de dinheiro. Mas fugiu para a Itlia antes da execuo da pena, com passaporte falso de um irmo morto h 35 anos. Em fevereiro deste ano, foi descoberto na casa de um sobrinho na cidade de Maranello, norte da Itlia, e levado para a priso de Modena. Abatido e cansado, segundo pessoas prximas a ele, Pizzolato torce para no ser extraditado. Nas ltimas semanas, o ex-diretor do Banco do Brasil tem passado os dias rezando sozinho ou em companhia do capelo da penitenciria, alm de frequentar um dos cursos destinados aos carcerrios. 


4#5 SOB ATAQUES, PADILHA CAI NA ESTRADA PARA SE TORNAR CONHECIDO
Bombardeado por denncias da Polcia Federal e desconhecido do eleitorado, o ex-ministro da Sade promove uma campanha que rene mtodos utilizados por Obama nos EUA e por Lula nos anos 1990 para tentar quebrar a hegemonia do PSDB em So Paulo
Alan Rodrigues (alan@istoe.com.br)

At o incio de abril, o principal desafio do ex-ministro da Sade Alexandre Padilha para se viabilizar como alternativa petista ao governo de So Paulo era se tornar conhecido no maior colgio eleitoral do Pas. Aos 42 anos, ele jamais disputou uma eleio. No pediu voto sequer para sndico de condomnio, mas foi alado ao posto de pr-candidato a governador pelas mos do ex-presidente Lula, que em 2012 conseguiu, em situao semelhante, eleger prefeito de So Paulo o at ento desconhecido Fernando Haddad. Nas ltimas semanas, Padilha passou a enfrentar outro problema. Ele  apontado pela Polcia Federal como suspeito de ter ligaes com o doleiro Alberto Youssef, preso na Operao Lava Jato e responsvel por uma lavanderia que teria movimentado cerca de R$ 10 bilhes. Segundo sugere o relatrio da PF, o ex-ministro teria indicado um ex-assessor, Marcus Cezar de Moura, para ocupar um posto executivo no laboratrio Labogen, um dos braos do esquema de Youssef, que tinha interesses no Ministrio da Sade, intermediados pelo ainda deputado Andr Vargas (PT-PR). No tenho nenhuma relao com Youssef, no indiquei ningum para laboratrio nenhum e recebi o deputado Andr Vargas em audincias oficiais, cumprindo o papel de ministro, disse Padilha  ISTO na quinta-feira 24. Segundo ele, o laboratrio Labogen no recebeu nem um centavo do Ministrio e os entendimentos que vinham sendo mantidos foram cancelados logo que o esquema comandado pelo doleiro foi descoberto. No PT h a preocupao de que as suspeitas vazadas pela Polcia Federal possam comprometer a campanha do ex-ministro exatamente quando ele busca reconhecimento. O temor  o de que o pr-candidato perca muito tempo tendo de dar explicaes relacionadas a esquemas de corrupo no momento em que precisaria aliar seu nome ao programa Mais Mdicos, o que, avaliam os petistas, lhe trar uma visibilidade positiva.

TURBULNCIAS - Ex-ministro da Sade faz campanha a bordo da Caravana Horizonte Paulista. Visitas ao interior do Estado ocorrem em meio a suspeitas de corrupo

Na quinta-feira, quando a denncia da PF se tornou pblica, Padilha estava em Bauru, a cerca de 350 quilmetros de So Paulo, cumprindo a nona etapa da Caravana Horizonte Paulista. Foi assim que o pr-candidato batizou sua estratgia em busca de conhecimento. Trata-se, na prtica, da unio de duas formas vitoriosas de campanha. Como fez Obama nos Estados Unidos, Padilha percorre o Estado a bordo de um nibus especialmente preparado, uma espcie de comit sobre rodas ao custo de R$ 600 mil. Batizado de Buzo do Padilha, o veculo, que tem pintada uma enorme estrela do PT, possui 12 poltronas semileitos, trs mesas de reunio, dois aparelhos de tev, geladeira, cafeteira, banheiro e um closet, onde o candidato guarda pelo menos trs mudas de roupas. No Buzo do Padilha existe uma dezena de tomadas para que aparelhos eletrnicos como celulares, tablets, impressoras, roteador de wi-fi e microcomputadores no saiam do ar. O nibus est equipado com uma antena que o mantm conectado o tempo todo com um satlite. Na estrada, quando no est reunido com assessores e lderes polticos, Padilha usa a internet para conversas em tempo real com os eleitores. Assim, o ex-ministro repete em So Paulo o que o ex-presidente Lula fez no Brasil com as chamadas Caravanas da Cidadania. Nosso objetivo  escutar os mais diferentes pensamentos, ideias e propostas, de gente de qualquer partido ou credo, para formatarmos um programa suprapartidrio para o Estado, diz Padilha.

As caravanas de Padilha tiveram incio em fevereiro, j percorreram mais de sete mil quilmetros e passaram por 131 cidades. O pr-candidato, ao contrrio do que  tradicional nas campanhas petistas, no vem buscando sindicatos e nem grandes eventos populares. Padilha tem privilegiado encontros com associaes comerciais, empresrios e lideranas ligadas ao agronegcio, principalmente em cidades comandadas por partidos adversrios. Quero fazer uma campanha que v alm do PT, diz o ex-ministro. No partido, as jornadas de Padilha pelo interior so chamadas de Padilhando. Agora, diante dos ataques que vem sofrendo, o pr-candidato dever contar com uma participao mais constante e efetiva do ex-presidente Lula em seu nibus. Nos bastidores, Padilha trabalha para se desvincular do deputado Andr Vargas, at aqui o responsvel por colocar lderes petistas ao lado de um doleiro preso.


4#6 PRIVACIDADE EM JOGO
Sano do Marco Civil da Internet traz importantes avanos na proteo de dados na rede, mas ainda  o internauta o grande responsvel por manter a salvo suas informaes pessoais
Lucas Bessel (lucasbessel@istoe.com.br) e Ana Carolina Nunes (acarol@istoe.com.br)

Na quarta-feira 23, enquanto a presidenta Dilma Rousseff sancionava o Marco Civil da Internet em um evento em So Paulo, um pequeno grupo de manifestantes protestava exibindo imagens do rosto do ex-analista da CIA Edward Snowden. Responsvel por revelar o esquema de espionagem internacional montado pelo governo dos Estados Unidos  que atingiu de cidados comuns a autoridades estrangeiras, como a prpria Dilma , Snowden, hoje asilado na Rssia, virou smbolo de uma demanda global por mais privacidade na rede. No Brasil, esses pedidos influenciaram diretamente a criao do Marco, um conjunto de leis com direitos e deveres dos usurios e empresas na internet (confira quadro). Classificado pelo governo como referncia mundial em legislao para a rede, o texto, que dever entrar em vigor em dois meses, traz importantes avanos no que diz respeito  proteo dos dados pessoais dos internautas. Ele, no entanto, no muda um fato muito simples e concreto: em ltima instncia, o grande responsvel por manter informaes a salvo na internet  o prprio usurio.

MASCARADOS - Manifestantes exibem fotos do ex-analista da CIA Edward Snowden, o dedo-duro da espionagem americana, durante sano do Marco Civil da Internet

Do que foi planejado para o que foi aprovado, ficamos 70% fiis ao texto original, feito por consulta pblica, diz Ronaldo Lemos, advogado especialista em internet, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e um dos idealizadores do Marco. Apesar de considerar a aprovao uma vitria da democracia, Lemos afirma que o texto representa apenas o primeiro passo para aumentar a segurana do usurio da rede.  Ainda falta a aprovao da Lei de Proteo de Dados Pessoais, que est parada no Ministrio da Justia h pelo menos quatro anos. Essa lei, segundo o especialista, vai definir como sero protegidos os dados no Brasil e o que pode ou no pode ser feito com as informaes. O Marco aprovado estabelece que apenas mediante ordem judicial os provedores de conexo podem revelar a identidade ou outros dados dos usurios.

AINDA FALTA - Ronaldo Lemos, um dos idealizadores do Marco Civil: "apenas o primeiro passo"

A to almejada privacidade tambm  relativa no que diz respeito a servios de redes sociais ou busca, mesmo aps a aprovao do Marco. A publicidade dirigida  em que empresas como Facebook ou Google usam o histrico de navegao e interesses de seus usurios para enviar ofertas comerciais selecionadas  no deixar de ocorrer. Esse  o inevitvel preo que se paga pelos benefcios gratuitos da rede. O novo texto estabelece, porm, que o possvel aproveitamento dessas informaes pelas empresas deve ficar explcito nos termos de uso, aqueles que nenhum internauta jamais leu. Procurado por ISTO para comentar o assunto, o Facebook do Brasil se limitou a informar que apoia os esforos para assegurar uma internet livre e aberta, que gere oportunidades e benefcios importantes para a sociedade brasileira. Em nota, o Google informou que sempre apoiou abertamente o Marco Civil da Internet, resultado de um rico debate que levou a um projeto de lei moderno, composto de princpios reconhecidos globalmente.

Enquanto aguarda regulamentao, o Marco Civil j enfrenta presses por mudanas em um aspecto que  polmico em todo o mundo: a guarda de dados. O texto estabelece que os provedores de servios, como redes sociais, bancos ou lojas virtuais, devem manter guardados por seis meses os registros de navegao de todos os seus internautas. O armazenamento em massa e irrestrito reduz a liberdade de expresso, pois passa a impresso de que estamos constantemente sendo vigiados, afirma Paulo Ren, representante do Movimento Marco Civil J. A Europa havia aprovado, em 2006, uma diretiva similar, que obrigava empresas a conservar dados pessoais de usurios para combater o terrorismo e o crime organizado. No incio deste ms, entretanto, o Tribunal de Justia Europeu considerou a regra invlida. Alm da discusso sobre os limites da atuao do Estado sobre as atividades dirias dos cidados, existe grande preocupao sobre a segurana desses dados armazenados.  possvel garantir que eles no sero acessados ilegalmente? As grandes empresas provedoras j tm uma estrutura para isso, ento a principal preocupao  com as pequenas empresas, os pequenos servidores, diz Eduardo Merger, presidente da Associao Brasileira de Internet. A melhor soluo, por enquanto,  contar com a prpria discrio na rede.
